Distribuição Revista Elo - Jan-Fev/2004 05 julho 2004

Contreras conclui gasoduto para a Comgás

A construtora argentina Contreras finalizou em dezembro de 2003 a implantação de uma rede com 9,8 quilômetros de extensão, em seu primeiro contrato fechado com a Comgás - Companhia de Gás de São Paulo. As características do projeto executivo da obra - grande parte em MND (Método Não-Destrutivo), complementado por trechos em VCA (Vala a Céu Aberto) - e sua localização, na área urbana de Taboão da Serra, Grande São Paulo, além do curto período de implantação - seis meses -, foram determinantes para definir a locação, através da Rental Store da Sotreq - S. Paulo, como forma de reunir as 12 retroescavadeiras necessárias ao cumprimento do cronograma, todas Caterpillar, por exigência da própria Contreras.

A empresa chegou ao Brasil em 1998, contratada para participar da construção do Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol), onde permaneceu até 2001. Com 50 anos de atuação na região sul da Argentina, em obras de oleodutos, gasodutos e plataformas compressoras, resolveu manter uma base no Brasil, segundo o gerente de logística, Osvaldo J. Rodriguez, e montou escritório no Rio de Janeiro (RJ), executando, nos últimos anos, a implantação de redes de fibra ótica para a Petrobras, além de gasodutos como o da Comgás.

Conforme Nelson Aguiar Ferreira, supervisor técnico da Contreras, a nova rede partiu da rua Sapetuba, percorrendo 9,8 quilômetros para chegar defronte ao Shopping Taboão, ao qual foi ligada por um ramal. O fornecimento destina-se ao projeto de cogeração utilizando gás natural, que garantirá a auto-suficiência em energia do empreendimento. O Shopping Taboão pertence ao Grupo Nacional Iguatemi e ocupa uma área de 35 mil metros quadrados, contando com 180 lojas. Adilson Antonio Barbosa, fiscal de obras da Comgás, explica, no entanto, que essa é apenas a primeira etapa de um projeto da concessionária, com implantação prevista para 2004 que, em suas fases II e III, vai atender também às cidades de Itapecerica da Serra e Campo Limpo Paulista.

Iniciada em julho, a obra foi executada em sua quase totalidade - 95% - por MND. Marcelo da Silva Lourenço, supervisor de obras da Silcon Drilling, contratada da Contreras para os trabalhos de perfuração, diz que empregou dois modelos de perfuratrizes direcionais - que realizam a escavação dos furos, a retirada do material escavado e a inserção dos dutos: uma Scorpion SE 903, com 24 toneladas de pull back (força de tração) e uma Vermeer 2440, com 11 toneladas de pull back. A primeira - e única no Brasil a executar trabalhos de perfuração com ar comprimido - foi empregada nos trechos de material mais duro, do tipo rocha, argilito e areia, enquanto a segunda serviu aos de material mais solto. Juntas, as duas máquinas relizaram 40 furos.

Os 5% restantes da rede foram implantados pelo método de VCA em razão do limite natural de curvatura do tubo, o chamado limite de escoamento, que impede seu posicionamento pelas perfuratrizes direcionais em curvas mais acentuadas como nas esquinas das ruas. As tubulações utilizadas tiveram três diferentes diâmetros - de alta pressão, com oito polegadas, no início da rede, por um trecho de 50 metros; de 10 polegadas até o Shopping Taboão; e nos 480 metros do ramal de ligação, de quatro polegadas.

METODOLOGIA - As retroescavadeiras CAT foram empregadas em ambos os métodos construtivos: no VCA realizando a abertura das valas, posicionando os tubos, auxiliando no seu acomplamento durante a soldagem e aterrando a vala para a posterior recomposição do pavimento asfáltico. Já no MND, foram elas que abriram todos os cachimbos por onde entraram as duas perfuratrizes direcionais. A disponibilidade mecânica das máquinas foi de cerca de 95%, segundo Antonio Soares Camargo, da área de logística da Contreras. Para atender ao número solicitado pela empresa, Evandro Luiz de Carvalho, da Rental Store da Sotreq-São Paulo, teve de recorrer a três outras filiais: "Tínhamos seis 416C disponíveis e trouxemos outras duas de Ribeirão Preto. Dos modelos 416D, dois vieram da Sotreq-Sumaré e dois da Sotreq-São José dos Campos".

Antonio Camargo conta que foram abertas cinco frentes de trabalho na obra, três delas com dois equipamentos e outras duas com três cada. É o caso, por exemplo, da única frente que não foi executada pela empresa, mas por uma subcontratada, a Teg Sistemas. "Do 1,2 quilômetro que implantamos, três 416C operaram nos 60 metros de VCA e também nos 1.140 metros de MND", lembra Ederaldo Ferreira Souza, supervisor técnico da Teg Sistemas.

Para Nelson Ferreira, a opção por esse tipo de equipamentos foi feita em função de sua agilidade, versatilidade e facilidade de movimentação em um ambiente onde os principais obstáculos foram o trânsito local, de alto fluxo, e as interferências - como são chamadas as demais redes de serviço (água, esgoto, fibra ótica e galerias pluviais) - encontradas no subsolo.

A profundidade padrão de enterramento de uma rede da Comgás é de 1,20 metro, mas também é norma da companhia que essa rede esteja entre 40 e 50 centímetros abaixo das demais, eliminando o risco de danos causados por intervenções de manutenção alheias. Por isso, esse foi outro momento em que as retroescavadeiras entraram em cena: para içar e manter segura a tubulação da outra rede, enquanto a da Comgás era posicionada por um caminhão munck. No caso dessa obra, as profundidades ficaram entre 2 metros, em média, e 4,50 metors, nas situações em que seu traçado coincidia como o das galerias de águas pluviais, enterradas a 4 metros.

Luiz Manoel Placha veio de Campo Grande (MT) como coordenador técnico e responsável pelo controle de qualidade e projeto da obra, contratado pela QSE - Quality Services, por sua vez contratada pela Contreras. Um dos poucos e seletos especialistas certificados no país pela Petrobras para exercer o controle de qualidade em gasodutos e oleodutos, Luis Placha explica que esses tipos de obras são regidos pelas normas ASME 31.8 e API 1104.

Ambas têm procedimentos específicos para controlar a qualidade do projeto e sua execução, garantindo uma obra segura. Para isso, uma série de etapas deve ser criteriosamente seguida, começando pelo recebimento do material (tubos, válvulas, material de revestimento e acessórios). É feito então o levantamento topográfico para demarcação da obra e o desfile (colocação) dos tubos, seguido de sua soldagem em conformidade com as EPS (Especificações de Procedimentos de Soldagem). "Todo soldador que deixar de realizar esse trabalho por três meses ou que não comprovar sua atividade nesse período tem de passar por uma nova requalificação", justifica Luiz Placha, para demonstrar o rigor dos critérios técnicos. Normalmente são executadas 83 juntas por quilômetro, considerando-se um tubo médio de 11,86 metros de comprimento.

Concluída a soldagem, o passo seguinte é a inspeção das juntas por ultra-som, no caso de obras urbanas como a de Taboão da Serra, ou por radiografia (em locais onde é possível fazer o isolamento da área) e, após essas, o revestimento. O padrão é que 10% das juntas da obra sejam inspecionadas, mas neste caso, segundo Placha, foram 22%. Só então a tubulação é assentada dentro da vala ou inserida no furo direcional, podendo ser feita a interligação de seus tramos. "Concluído esse trabalho, montamos uma cabeça de teste e fazemos a limpeza da linha, passado o pig (tarugo de borracha ou espuma). Depois, a linha é pressurizada com água, atingindo 1,5 vez a pressão máxima prevista pelo projeto", explica Placha. Esse teste, que pode variar entre 4 e 24 horas, verifica a existência de vazamentos, a resistência mecânica dos dutos e o alívio de tensão.

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